Diário das Ocupações no Rio de Janeiro: IEPIC

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Texto de Fabiany Melo e Diogo Salles

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O IEPIC (Instituto Educacional Professor Ismael Coutinho) é a primeira escola de formação de professores da América Latina. Inaugurado em 1835 a partir do modelo de Escola Normal que estava começando a se estabelecer, o IEPIC estava na vanguarda de um projeto político de construção  do sistema de ensino brasileiro a partir da padronização da formação profissional docente. Mas, ao contrário do que pode parecer, a importância histórica do colégio não é uma questão para a ocupação. Na verdade, a tradição de mais de um século de existência não parece pesar nas costas de estudantes que sentem que suas pautas já deixaram o Período Regencial para trás há muito tempo.

Se no século XIX a criação de escolas como o IEPIC tinha a ver com a consolidação de um modelo de governo e de um projeto de nação para aquela época, agora, o que está em jogo é o rompimento com as várias políticas governamentais que não representam mais os interesses de uma comunidade escolar cada vez mais carente, junto com a criação de novos jeitos de se pensar em como se faz educação.

O IEPIC é um caso bem singular em comparação com a dos demais colégios ocupados no ocupaIEPIC_2Rio. O movimento de tomada da escola partiu dos secundaristas, todos eles em formação para se tornarem professores da educação infantil e dos primeiros ciclos do ensino fundamental. Para eles, o “total apoio à luta dos professores” – primeiro ponto de sua pauta – também significa encorajar uma briga por direitos que, mais cedo ou mais tarde, também serão disputados por eles. Num momento em que o desinvestimento no educação e as imposições burocráticas do governo precarizam cada vez mais a relação entre estudantes e escola, os alunos do IEPIC trazem uma outra questão à tona: o que significa se formar enquanto professor em condições como essas e, invariavelmente, o que significa ser um professor quando os obstáculos parecem tão intransponíveis?

Apesar da tradição e longevidade do IEPIC, os estudantes não se reconhecem bem representados dentro dessa longa trajetória.

Durante a visita feita à escola, os relatos mais comuns diziam respeito às dificuldades de negociação com os representantes da escola, o estado precário em que ela se encontra, onde faltam desde serviços básicos (alimentação, limpeza, segurança), até uma adequada gestão educacional.

ocupaIEPIC_3A situação com a direção do colégio é particularmente tensa. Em vídeos produzidos pelos próprios alunos, pode-se ver que os momentos iniciais da ocupação foram marcados por muitas discussões com membros da direção. Aqui se repete um problema que parece ser a regra para a realidade das escolas da rede estadual. Diretores não são eleitos pela comunidade escolar, mas indicados pela Secretaria de Educação. Os estudantes não recebem explicações a respeito dos direitos que eles possuem para se mobilizar através de grêmios. Disciplinas têm horários reduzidos, prejudicando alunos que dependem de várias dessas matérias para sua formação profissional. Com esse vazio de legitimidade que a administração do colégio sofre, ocupar vira a principal maneira de ter suas demandas ouvidas.

Muitas dessas pautas podem parecer vagas, mas têm um caráter bem pragmático dentro do dia a dia do colégio. Por exemplo, o “fim da obrigatoriedade do uniforme” pode ser entendido como uma demanda desnecessária, mas é algo significativo para alunas que devem estudar de saia, mas não podem usar esse tipo de roupa em seus próprios estágios de iniciação à docência; pedir pelo “fim da opressão e do preconceito” talvez seja visto como algo ingênuo, mas dentro de uma realidade de um corpo discente com parcelas significativas de estudantes LGBTs, essa exigência parece dizer respeito a aspectos muito feios, porém não menos verdadeiros, de uma realidade escolar que precisa ser contestada.

Reconhecendo-se como um movimento apartidário, a ocupação conta com a adesão de alunos do ensino fundamental e médio, além do apoio de professores, pais, advogados e mídia independente, que vêm acompanhando os esforços dos alunos com a autorização da ocupação.

Os alunos utilizam o ginásio do colégio como dormitório e recebem o apoio de outros estudantes e familiares para maior segurança. Contam com a iniciativa de diversos grupos que promovem eventos como oficinas e “aulões” para esclarecimento de temas e integração do corpo discente. Também recuperaram a rádio da escola para melhorar o contato e divulgação entre alunos e relataram o princípio de formação de um grêmio estudantil durante a ocupação.

A reivindicação dos estudantes de uma “gestão autônoma das escolas” parece ser a chave para as várias questões levantadas pela ocupação. Com ela, os alunos estão redefinindo o seu lugar dentro da escola. Enquanto estudantes, eles querem ter condições de dizer algo sobre o que precisa mudar e o que precisa melhorar dentro da escola para terem suas necessidades atendidas. Enquanto professores em formação, eles esperam que o novo tipo de escola que eles estão ajudando a construir seja uma escola da qual eles gostariam de fazer parte num futuro próximo.

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Diário das ocupações no Rio de Janeiro: C. E. Visconde de Cairu

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Diogo Salles, Elisa Dourado e Renata Aquino

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página do Ocupa Cairu

“Via reformista”

Depois do protesto do dia 23/03, ficamos curiosos em visitar o C.E. Visconde de Cairu, que,  conforme vários estudantes nos contaram, estava em estado de “ocupação parcial”, com os estudantes passando o dia inteiro na escola, fazendo atividades e assembleias na escola.

Assim, na segunda-feira, dia 28/03, fomos ao colégio no fim da manhã conhecer o movimento dos estudantes. Passamos algum tempo no portão do colégio esperando encontrar os alunos responsáveis pelas atividades sobre as quais ouvimos no protesto, até que eventualmente apareceu um grupo de quatro jovens do comitê de organização, responsáveis pela mobilização. Um deles era do 1º ano, 14 anos, e os outros três eram do 3º ano, com idades entre 17 e 18 anos. Após as apresentações, falamos sobre o MLE, sobre o contexto atual onde as mobilizações estudantis têm sido rotuladas frequentemente de ações dirigidas por partidos e coletivos, e sobre a visão de aluno do ensino médio que subjaz a esses rótulos. Começamos a conversa, então, com pergunta semelhante àquela primeira feita no protesto: as alunas e alunos se sentem pressionados a fazer aquilo ou a seguir alguma linha de pensamento específica?

Assim como no dia 23, a resposta veio rápido e definitiva: não. De fato, nas últimas semanas eram os estudantes que iam aos professores e perguntavam sobre a greve, e tentavam convencer aqueles que não aderiram a mudar de ideia. Os jovens acham absurdo o boato corriqueiro de que as ocupações têm acontecido por direcionamento destes ou daqueles grupos, já que em última instância eles têm interesses muito claros: quanto mais os estudantes ajudarem, mais rápido os professores podem ter suas pautas atendidas e retornar às salas de aula. Perguntamos o que eles acham que mudou da última greve para esta atual, que diferente das anteriores tem recebido apoio amplo e ativo por parte dos alunos, e ouvimos que as pautas das greves sempre alcançavam também os estudantes, então é uma “via de mão dupla”, mas que depois de acompanharem a experiência das escolas de São Paulo ficou mais claro que eles poderiam fazer algo também.

Ao conversar com os alunos, um funcionário da escola aparece e é chamado pelos estudantes a participar da roda que criamos. Ele nos contou sobre as dificuldades da escola em conseguir administrar a rotina do colégio, já que com por volta de 3 mil alunos (juntando todos os turnos) a equipe que não conta nem com 10 funcionários fica sobrecarregada. Ele conta que por estar em estágio probatório e só ter este emprego como fonte de renda decidiu não aderir à greve, mas que ajuda como pode nas reuniões e assembleias, disponibilizando a chave do auditório da escola assim como trazendo seus instrumentos musicais para ajudar nas oficinas e pequenos shows dos estudantes. Segundo ele, a aproximação com os jovens em torno desta causa – que une toda a comunidade escolar, sem restrições – tem sido uma experiência muito rica em aprendizados.

Este mesmo funcionário, em momentos da conversa onde falava de suas discussões com os jovens, citou uma piada interna do grupo, dizendo que eles estavam seguindo a linha reformista e não a revolucionária, ainda. Até agora os jovens já haviam organizado, desde o início da greve: um abraço na escola, um protesto em uma área central do Méier (bairro onde fica a escola, um dos centros comerciais da zona norte do Rio), até o protesto que teve cobertura de um dos integrantes do MLE no dia 23 de Março. Após terem suas reivindicações desrespeitadas ao sentarem pra conversar com a SEEDUC, em reunião conquistada na Metropolitana III naquele dia, onde suas pautas foram ignoradas na redação da ata da reunião, os estudantes decidiram pela “via revolucionária”: após verem que o Mendes foi ocupado e que está se mantendo, e que seus atos não foram o bastante para o governo ouvi-los de fato, o corpo discente do C.E. Visconde de Cairu decidiu em assembleia na manhã de segunda-feira (04/04) ocupar a escola até que suas demandas sejam atendidas.

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“Via revolucionária”

Ao chegarmos na escola, dia 7/04, somente 3 dias depois da ocupação, fomos recebidos por um grupo de cerca de cinco jovens que nos pediam para anotar em um caderno nossos nomes, horário de entrada e de que movimento, grupo, partido ou afim fazíamos parte. Uma jovem pediu a uma de nós uma prova de que eu era realmente uma universitária como dizia ser e, ao ser censurada por um colega, disse que isto era necessário para manter a segurança deles e da escola. Nossas identificações foram entregues e um rapaz do grupo se ofereceu pra nos mostrar o colégio, que depois se retirou para deixar um membro da comissão de comunicação continuar a “tour” conosco.

A escola estava cheia de estudantes e de cartazes em várias paredes, os quais fotografamos e acompanham agora este texto. Na porta da sala da direção, onde havia antes um código disciplinar a ser seguido na escola, como uniforme, horários e etc, há agora um cartaz marrom com dizeres pintados com tinta guache: “Minha escola, minhas regras”. Cartazes como este ou semelhantes têm aparecido nas fotografias das outras escolas ocupadas e ilustram a essência de uma ocupação: os estudantes estão se empoderando, enquanto cidadãos, enquanto agentes da história, e tirando da teoria e aplicando à prática a ideia de uma “escola pública”.

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Depois da sala da direção, virando no corredor à esquerda, andamos um pouco e chegamos ao auditório onde têm acontecido cerca de duas assembleias por semana, e onde se planeja fazer uma no sábado (9/04) para os estudantes conversarem com os responsáveis e explicarem o processo de organizar e manter uma escola ocupada. No andar de cima, todas as salas de um dos corredores têm pregados nas portas cartazes que identificam a que comissão pertencem: “comunicação”, “doações”, e por aí vai, e o jovem que nos acompanha explica que nestas salas as comissões fazem suas reuniões. Quando entramos ali também nos pediram silêncio, pois alguns estudantes que fizeram a segurança da escola à noite estavam dormindo naquele momento.

Ocupar, cuidar e organizar a escola implicou também em um reconhecimento da mesma, que por sua vez levou a uma nova relação e um cuidado excepcional com ela. A ocupação parece ter descoberto um novo colégio dentro daquele que os alunos mal conheciam. Salas que nunca tinham sido usadas estão sendo abertas e colocadas em uso para atividades de greve. Espaços que antes eram basicamente depósitos de entulho estão sendo limpos e reintegrados. Os cartazes nas paredes tornam tangível a apropriação daquele espaço pelos alunos. O #ocupacairu parece várias ocupações dentro da ocupação. Em vários momentos, os jovens que nos conduziam e apresentavam os lugares disseram coisas como “este lugar nós chamávamos de ______, porque não sabíamos o que tinha aqui”. A sala dos produtos de limpeza, que estava cheia de coisas quebradas, foi higienizada pelos estudantes e até uma cadeira de rodas foi encontrada. Um espaço perto de uma das quadras que os alunos chamavam de “bat-caverna” foi aberto e eles descobriram que é uma antiga cantina, que está agora cheia de lixo como uma geladeira da Antarctica, mesas e cadeiras velhas, armários velhos, mas também coisas que a escola poderia utilizar, como utensílios de cozinha e móveis em bom estado. No outro lado da escola há uma espécie de canteiro com árvores onde os estudantes costumam jogar copos sujos. Os jovens da ocupação nos contaram que estão planejando fazer um mutirão pra limpar aquele canteiro e torná-lo utilizável no futuro, além do que poderia eliminar possíveis focos de mosquitos da dengue.

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A auto-organização e protagonismo dos estudantes no movimento é fundamental pra eles. Quaisquer insinuações de participação e direcionamento da ocupação por parte de movimentos, coletivos, partidos, sindicatos e afins é imediatamente rechaçada. Eles nos deixaram claro: eles recebem doações de todos, algumas pessoas de movimentos ajudam dormindo na escola de vez em quando, mas não mais que isso. Em um certo momento quando conversamos com uma professora, um aluno do 1º ano que estava conosco na sala e que intervia na conversa de vez em quando, ao descrever os motivos dele pra apoiar a ocupação, disse: “a gente tá ajudando [a greve dos professores] porque eles não iam conseguir sozinhos”. Os jovens têm muito claro o seu poder no contexto político. Temos muito a aprender com eles: em uma situação de crise e polarização, os jovens nos fazem relembrar que política é mais do que partidos, e veem aos seus companheiros e aos professores como iguais.

O que as alunas e alunos que ocupam a Cairu querem é serem levados em conta. Elas e eles querem isso tanto enquanto cidadãos que têm direito a uma escola de qualidade, bem cuidada, conservada, que tenha professores para todas as matérias, que tenha uma educação crítica e que lhes garanta um futuro; assim como também querem ser ouvidos nas tomadas de decisões que devem ser o modus operandi de um espaço público: uma das pautas da ocupação é o direito da escola a eleger seu/a diretor/a. O diretor atual da escola não é oriundo do corpo de funcionários dela, e foi encaminhado unilateralmente pela SEEDUC. Os jovens também querem opinar sobre o que estudam, e fazem críticas ao currículo mínimo por não oferecer o necessário para conseguirem bons resultados no vestibular.

Um novo sentido para o espaço da escola

O que mais assusta no Cairu é o tamanho. A escola ocupa praticamente um quarteirão inteiro. O que é compreensível. Não é demais repetir que o colégio precisa atender mais de 3.000 alunos, em aulas que vão das sete da manhã até as dez e meia da noite. Mas tamanho nunca é documento. Com turmas sendo fechadas e reabertas e  um quadro de funcionários de manutenção reduzido, o dia a dia de salas superlotadas e falta de seguranças na portaria estava transformando o tamanho do colégio num peso difícil de alunos e professores suportarem.

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Quando se fala que toda luta política é uma luta por espaços, o Visconde de Cairu tomou essa ideia literalmente. É legal ver como a questão do espaço da escola é significativo para os estudantes. Pegando as “Pautas de reivindicações” do movimento em sua página do facebook, demandas muito ousadas (se pedir a abolição do SAERJ não é ousado, não sabemos o que é) se misturam com questões como a criação de um “projeto pedagógico para o bosque”. O bosque fica entre a quadra e um dos vários depósitos do colégio. Como a escola contava com o pouco invejável quadro de funcionários de um único inspetor, até antes da ocupação o bosque era por onde os alunos podiam pular os muros do colégio depois de pegarem presença nas chamadas da aula, assim como também era um perigo à segurança dos que ficavam do lado de dentro. Hoje, os jovens reivindicam que esse mesmo espaço de fuga torne-se parte do colégio; não no sentido puramente material, mas também pedagógico.

Para a ocupação a escola precisa ter um sentido, seja nas formas mais básicas, como a qualidade da merenda ou o passe livre para estudantes da rede, seja num sentido mais profundo. O quinto ponto do manifesto dos estudantes mostra que a disputa por espaços não é só por quantidade, mas também por outro significado para os lugares da escola: “Gestão democrática da escola: eleição direta para a direção, livre organização do movimento estudantil, utilização da sala do grêmio”.

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Apesar de estar prevista pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Art. 14), uma gestão democrática da escola é algo que raramente acontece nos colégios da rede pública, dentro ou fora do Rio de Janeiro. Diretores são escolhidos ou destituídos diretamente pela Secretaria de Educação. Grêmios estudantis são indicados pela coordenação de colégios, excluindo os estudantes da decisão. Alunos e responsáveis encontram dificuldades para ter acesso aos serviços mais simples; fazer rematrículas ou emitir o riocard para transporte público se tornam desafios absurdos em meio às dificuldades burocráticas e à falta de investimentos nas estruturas da escola.

Uma educação pública que não conversa com seu público claramente precisa ser repensada. E são os estudantes e as ocupações que estão tomando essa função de construir um tipo diferente de escola. Nada mais representativo disso do que as várias atividades de ocupação, com aulas e palestras ministradas por professores e voluntários que não precisam se preocupar com as diretrizes do Currículo Mínimo ou com a data da próxima prova do SAERJ. Tudo isso sendo feito em salas de aula e auditórios até então fechadas para esses mesmos estudantes, que agora usam esses espaço para fazer a escola acontecer.

“Acho que a ocupação está servindo mais do que as aulas normais…”

…foi a resposta que o estudante que nos conduzia me deu quando perguntei se a visão dele de educação havia mudado depois da ocupação da escola.

É tocante visitar uma escola ocupada. Em tempos de desesperança e medo pelo futuro da educação pública e, por outro lado, de encontros frequentes com alunas e alunos desinteressados, ver estes mesmos jovens levantarem-se e agirem, e claramente se empoderarem nesse processo, é um sopro de ar fresco para o nosso trabalho enquanto professores. Uma professora da escola, que estava lá para encontrar outros colegas e combinarem os aulões da semana seguinte, chamou a ocupação de “concretização de uma utopia” porque ela significa que os professores desta escola conseguiram mostrar aos estudantes que “eles têm o poder e as ferramentas”. De fato, comentou ela, o próprio conhecimento ali construído também não é algo estático: hoje ela está na frente da sala, mas em alguns anos estes jovens podem estar em laboratórios, centros de pesquisa e atividades de campo, descobrindo coisas novas e vindo ensinar a ela as novidades. Isto é mais uma das brechas na organização da educação estadual carioca que momentos de ruptura como este, em um Rio de Janeiro com mais de 15* escolas estaduais ocupadas, mostra mais claramente: o conhecimento não existe fora da realidade, ele se mistura com ela. Portanto, negar essa relação e tratar a educação de um ponto de vista tecnocrático, onde alunas e alunos não são muito mais que robôs que devem produzir bons números, necessariamente levará a uma educação falha em cuidar do futuro do mundo. Nós, professores, quando dizemos que os estudantes são o futuro, não queremos dizer que somente no futuro eles farão a diferença. Queremos dizer que eles são o futuro presente agora; estamos tentando dizer que, pra que eles possam melhorar as suas realidades, eles têm que perceber que eles podem fazer tudo isso começando hoje, na escola.

*No momento da revisão final deste texto há 27 escolas ocupadas ao longo do estado.

Diário das Ocupações no Rio de Janeiro – Colégio Estadual Gomes Freire

Texto de Elisa Dourado e Diogo Salles

Quando o assunto é participação estudantil, a greve da educação estadual fluminense desse ano colocou uma série de novas questões na mesa. A comparação inevitável com as ocupações do ano anterior em São Paulo mostra que, nos colégios fluminenses, o que está em jogo são coisas completamente diferentes.

Em São Paulo, em meio ao processo de reorganização da rede de ensino pelo governo do estado, com fechamento de escolas, transferência de alunos e superlotação de turmas, o ponto de partida das ocupações era bem claro: não ocupar as escolas significava perdê-las. Já no Rio, menos do que uma falta de foco, o que há é uma multiplicidade de focos; e isso não impediu que os estudantes continuassem lançando mão do ato de ocupar. Muito pelo contrário, ocupar pode estar se tornando mais do que um ato de resistência, mas um ato de construção.

“A gente se interessa por aquilo que aprende”

Descontração, aconchego e tranquilidade não são sensações geralmente associadas ao clima de aulas sobre Nietzsche e Maquiavel no Ensino Médio. Muito menos quando acompanhadas por participação e interesse por parte dos alunos.  

Foi o que encontramos na tarde de hoje, quarta-feira, no Colégio Estadual Gomes Freire, na Penha. Após sermos recebidos por dois representantes da comissão de comunicação da ocupação, acompanhamos a atividade organizada para o dia. Durante quase duas horas, o auditório lotado manteve-se atento aos temas do aulão de Filosofia daquele dia. Nem os momentos de risos e descontração desviavam o foco das discussões trazidas pelo professor.

As discussões da aula não eram lá muito leves; envolviam política, moralidade, religião e ética. Não menos surpreendente do que o nível de atenção dos alunos durante as mais de duas horas foi saber depois que o tema da aula foi sugerido pelos próprios estudantes.

“A porta vai fechar, a aula vai começar, ou tá pensando que isso aqui é que nem aula do estado?”

O aulão de filosofia foi só um dos cinco que a organização dos estudantes promoveu em apenas uma semana de ocupação. Atividades como essas são decididas em assembleias feitas diariamente por todos os estudantes que possam estar presentes no colégio. Apesar de estarem em greve, a participação dos professores nas atividades é voluntária e uma forma de dar apoio à iniciativa estudantil.

Segundo os dois representantes que conversaram com a gente, toda a administração do colégio está na mão dos estudantes. Quatro comissões (comunicação, segurança, limpeza e cozinha) tomam conta das necessidades do dia-a-dia da ocupação. Banheiros são limpos, caixas d’água são consertadas e o jantar é servido. Os estudantes tomam para si o direito de fazer a escola acontecer e funcionar, já que o poder público não parece estar dando conta.

“As mesmas capacidades a gente tem. A gente só não tem as mesmas oportunidades.”

Porém, as cobranças sobre a Secretaria de Educação e o governo do estado ainda são um dos pontos centrais da ocupação. Elementos básicos para o funcionamento do colégio (manutenção de ar condicionados, pagamento de funcionários e acessibilidade para alunos com deficiência) não estão de acordo com as necessidades dos estudantes.

Além da estrutura da escola, outra preocupação dos estudantes diz respeito ao que eles estão aprendendo ou deixando de aprender nas salas de aula. Formatos de avaliação como o SAERJ e o sistema do currículo mínimo também estão sendo contestados. Especialmente para os estudantes em ano de vestibular, as contradições e problemas desses modelos não podem passar em branco.

Enquanto estudantes vão construindo novas maneiras de se colocar como agentes de mudança, um ponto comum das várias ocupações em andamento e das que ainda estão por vir é a busca por um sentido para a escola. Reorganizando os intermediários, os alunos estão definindo que eles não precisam só da escola que eles já tem, mas também da escola que eles querem ter.

Em Greve por uma Escola que Dê o Básico para os que Dependem Dela

Texto de Diogo Salles

Em dias de sol e céu aberto como o de hoje a sensação térmica no centro de Realengo passa tranquilamente dos 40º. Às vezes, qualquer desculpa vale para andar na sombra ou entrar numa loja ou mercado, só para aproveitar o ar condicionado. Mas se você é estudante da rede estadual na zona oeste, não é tão tão fácil encontrar o mesmo alívio em turmas com lotação de mais de 50 alunos e um ventilador por sala.

Nessa última segunda-feira (28/3), estudantes e professores do estado se reuniram em frente ao Colégio Estadual Madre Teresa de Calcutá, partindo numa caminhada até a Praça de Realengo para cobrarem o mínimo de condições de trabalho e de ensino dentro de suas salas de aula.

Estudamos numa Sauna de Aula

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Crédito: Vandré Nascimento

Para as estudantes Júlia e Glória, os pontos mais importantes da greve são as péssimas estruturas do Colégio, desde questões mínimas como a falta de ar refrigerado em todas as salas, até questões mais profundas como a falta de pagamento de professores. A partir do depoimento delas, fica claro que o esquecimento por que as escolas da região passam acaba gerando um distanciamento entre escola e comunidade escolar; os estudantes não sentem que a escola lhes pertence. Porém, a proposta dessa greve parece caminhar para a superação dessas barreiras. Segundo Lívia Fernandes, diretora da Regional VIII, a proposta dessa e de outras manifestações que vêm sendo organizadas a partir de colégios da zona oeste é justamente consolidar uma sensibilização social de fora para dentro das escolas, trazendo para o espaço público da sociedade civil demandas que não podem ficar restritas somente a relações burocráticas entre Secretaria de Educação e escolas da rede.

Quem me dera todo mundo ocupasse

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Crédito: Vandré Nascimento

Se havia um ponto de convergência entre todos os envolvidos na passeata, eram elogios ao trabalho de educadoras como Márcia, professora de artes. Para Márcia, o trabalho dos professores num momento de greve deve ser não só lembrar dos estudantes sobre seus deveres, mas também sobre seus direitos. Muitos comentavam o importante papel desempenhado por Márcia na conscientização dos estudantes sobre esses direitos e os mecanismos necessários para consolidá-los.

Falas de outras professoras faziam eco às de Márcia, com queixas constantes sobre a total falta de estrutura de colégios como o Madre Teresa, com turmas superlotadas, escolas construídas em prédios sem os equipamentos e materiais necessários para as necessidades do dia-a-dia de estudantes e funcionários, professores sendo silenciados e tendo suas demandas abafadas.

Quando perguntados sobre os movimentos de ocupação de escolas que começa a acontecer no estado do Rio, os professores responderam com otimismo, considerando a iniciativa de estudantes um dos caminhos possíveis para a construção de vínculos mais profundos entre demandas da escola e da sociedade como um todo.

Minha escola tem um refeitório; minha sala tem um ventilador; os professores estão há três meses sem receber. Meu pai também é servidor do estado e ele tá na mesma situação, sem conseguir pagar conta de luz nem água.

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Crédito: Vandré Nascimento

Para estudantes como Vitor, a greve tem relações mais profundas com a situação dos servidores públicos do estado do Rio. Em um contexto em que as prioridades do poder público parecem se distanciar cada vez mais das necessidades básicas da sociedade, esse é um momento onde aqueles mais afetados por essas mudanças começam a articular pautas. Passa-se a perceber que os problemas da educação não são exclusivos da educação, mas que eles fazem parte de uma estrutura que ataca o mais fraco e favorecem os que já são fortes. Uma estrutura que pode começar a ser contestada de baixo para cima.

Os estudantes do Rio estão cansados e não, eles não são a parte mais fraca

Em um protesto feito por estudantes de algumas escolas da Zona Norte do Rio em frente à Metropolitana III, em 23/03/2016, perguntei a eles o que acham de serem considerados a “parte mais fraca” da educação… e eles não concordam com isso. Na verdade, eles realmente odeiam esse ponto de vista.

Texto de Renata Aquino

Revisão de Diogo Salles

a aula hoje é na rua Bárbara Dias
Fotografia de Bárbara Dias

    O anteprojeto de lei estadual disponível no site da organização Escola Sem Partido para qualquer deputado ou deputada interessado em apresentá-lo em sua casa legislativa entende o estudante como a “parte mais fraca na relação de aprendizado”. Ou seja, os estudantes supostamente não têm independência intelectual para avaliar quando e se está sendo manipulado pelo professor. Por isto, o professor deve falar somente do “seu conteúdo”, – como se o conhecimento científico não dissesse respeito ao mundo fora da escola – deve evitar discutir política e questões de diversidade, sob o risco de “violar a liberdade de consciência” dos estudantes. Tentando o impossível, isto é, resumir a um só problema todos os problemas deste anteprojeto: ele não resiste a um confronto com a realidade. Continuar lendo