Resenha: O Ato de Matar (2012)

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Título original: The Act of Killing |

Lançamento: 2012 |

Gênero: documentário |

Disponível: Netflix

Texto de Diogo Salles

Em 1965, o governo indonésio foi derrubado pelos militares.

A todo aquele que se opôs à ditadura militar podia-se acusá-lo de comunista: sindicalistas, camponeses sem terra, intelectuais e chineses.

Em menos de um ano, e com ajuda direta de governos ocidentais, mais de um milhão de “comunistas” foram assassinados.

O exército usou paramilitares e gângsters para realizar as execuções.

Esses homens permaneceram no poder e perseguem seus opositores desde então.

Quando encontramos os assassinos, nos contaram com orgulho o que faziam.

Para entender as razões, pedimos que criassem cenas das execuções do modo como quisessem.

Este filme acompanha esse processo e documenta suas consequências.

Talvez uma das responsabilidades que mais pesa nas costas de um professor de história é a de vencer o esquecimento. Memória é uma coisa complicada. Muitas vezes ela funciona como um mecanismo de auto-defesa. É melhor lembrar o que nos convém e deixar de lado aquilo que nos dói recordar. Porém, esse ato reflexo também implica em abrir mão da responsabilidade que temos sobre a memória. Quando preferimos esquecer nos damos ao luxo de continuar perpetuando nossos erros.

No meu contexto de brasileiro médio (homem, branco, heterossexual, cis-gênero, classe média), eu posso dizer que esquecer é de fato um luxo. Mas eu sou a exceção. E quando desfrutamos de alguns privilégios – mesmo “alguns” já é muita coisa – nos permitimos erguer essas barreiras da memória porque não temos nada a perder. Bem, pelo menos achamos que não temos.

The Act of Killing é um filme tanto sobre memória quanto sobre esquecimento. Sobre como as escolhas que fazemos a respeito do que preferimos lembrar ou deixar de lado podem definir aquilo que somos, individual e coletivamente. Sobre como as consequências dos atos mais terríveis podem ser maquiadas até assumirem uma forma mais confortável e sobre como existe um limite até para essas ilusões.

É estranho que um filme que fale de um assunto tão específico consiga ser tão universal. Podemos substituir a ditadura indonésia que matou cerca de um milhão de pessoas em apenas dois anos por qualquer outra que convir. O pano de fundo histórico não importa tanto quanto a discussão em torno daquilo que fazemos com os nossos respectivos passados.

The Act of Killing não está preocupado com História, mas com narrativas. Como os créditos de abertura mostram, a ideia é apresentar a perspectiva dos assassinos. E esse termo não é usado de forma necessariamente pejorativa porque é assim que os personagens do filme se colocam: assassinos, gângsters, “freemen” – “homens livres” – matadores de “comunistas”; todos esses são títulos ostentados com muito orgulho pelos encarregados de reencenar no documentário os mesmos atos que os tornaram tão proeminentes e poderosos.

O projeto do diretor Joshua Oppenheimer começou ainda em 2003, quando ele trabalhava na região rural da Indonésia, ensinando técnicas de filmagem para sindicatos camponeses. Quando o diretor e sua equipe começaram a filmar conversas com pessoas que viveram ou perderam entes queridos durante o auge das campanhas de extermínio, coletando seus depoimentos e histórias, o esboço para o que se tornaria The Act of Killing começou a nascer.. Porém, conforme o governo indonésio começou a perseguir os que se voluntariavam a participar das filmagens de Oppenheimer, os grupos de trabalhadores rurais que acolheram a iniciativa do diretor deram para ele uma alternativa: entrevistar os perpetradores dos crimes.

Assim, acompanhamos a história de um filme dentro do filme, com os líderes das campanhas de extermínio montando e produzindo o épico cinematográfico que vai definir de vez seus papéis como heróis que fizeram o que tinha que ser feito para defender seu país contra as forças do mal. Só que os resultados não correspondem às intenções. O pior tipo de mentira é aquela que contamos para nós mesmos, e ela se torna ainda mais insuportável quando é exposta na nossa frente como a mentira que ela é, quando não há mais como desviar o olhar e fingir que é de outro jeito.

Quando os “freemen” se confrontam com a narrativa que os consolou durante tantos anos e começam a  desconstruí-la para refazê-la em suas reencenações, o peso das contradições se torna grande demais para ser ignorado.

O filme começa num tom de diversão e descontração que só potencializa ainda mais o desconforto. Técnicas de tortura e execução são recordadas em meio a risos e momentos de saudosismo e nostalgia, mas, por razões cuja compreensão o filme deixa a nosso encargo, os mesmos gângsters que comandaram o extermínio de dezenas, centenas e milhares de “inimigos” agora se colocam voluntariamente no papel dos torturados, dos assassinados.

Então, as primeiras rachaduras começam a aparecer. Em frente das câmeras, os “freemen” que antes estavam seguros da narrativa que guiou suas vidas durante mais de 40 anos, começam a confessar que suas motivações se sustentavam apenas em meias verdades ou completas mentiras. “É fácil fazer os comunistas parecerem maus depois que os destruímos”, diz um dos “freemen” entrevistados. Para ele essas contradições não importam muito: “‘Crimes de Guerra’ são definidos pelos vencedores. Eu sou um vencedor, então posso fazer minha própria definição”. Por outro lado,  Anwar Congo, o mais perto que o filme tem de um protagonista, não consegue se contentar com esses relativismos depois que a mentira está exposta para todos que quiserem ver. Após assistir à versão final de uma cena de tortura onde ele mesmo atuou como a vítima, não resta muito consolo para o “freemen”: “As pessoas que eu torturei se sentiram como me senti aqui? Consigo sentir os que as pessoas que torturei sentiram, porque aqui minha dignidade foi destruída e então os medos vem bem ali, bem naquele momento (…)”, ao que Openheimer responde de trás da câmera “Na verdade, as pessoas que você torturou se sentiram muito piores porque você sabe que é só um filme, elas sabiam que estavam sendo mortas”.

O silêncio é rompido por aqueles que mais se beneficiavam dele porque ele não é mais suficiente para sustentar o peso de tantos erros. The Act of Killing parece tão universal porque ele nos mostra as consequências de quando preferimos esquecer o passado e nos afundar em indiferença. Algo que estamos muito acostumados a fazer como forma de continuarmos justificando nossas falhas e nossas faltas, seja a respeito do passado, seja do presente.

 

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Plano de Educação Estadual da Bahia: Bíblia fica, gênero sai

Durante a discussão sobre o Plano Estadual de Educação da Bahia nessa última quarta-feira, dia 4 de maio, ficou claro que os grupos da sociedade civil que de fato querem um debate sério sobre educação precisam efetivamente ocupar esse espaço com todas as forças.

Assim como vem acontecendo em vários estados e municípios, os embates a respeito do plano se focaram principalmente nos termos gênero e sexualidade, com a presença de grupos e o apoio de políticos ligados a instituições religiosas ou ao discurso da “defesa da família  e dos valores”. A sessão da Assembleia Legislativa que votou o PEE foi marcada, pelo total desprezo à laicidade do Estado e preconceito contra homossexuais. O deputado Carlos Ubaldino (PSC) justificou seu posicionamento contra debates sobre gênero dizendo que “a mulher nasceu da costela do homem”. O deputado Pastor Sargento Isidório (PSB), que marcou presença com críticas aos grupos que lutavam pela permanência dos termos gênero e sexualidade, declarou que “homofobia é querer extinguir as crianças”. Ele já foi abertamente homofóbico várias e várias vezes. Com o encerramento da votação, o deputado ficou dançando com a bíblia nas mãos. O mesmo deputado é autor da Emenda 01/2015 ao PEE que é recordista em ataques a princípios democráticos fundamentais:

2.1) formalizar procedimentos orientadores para que o Ensino Fundamental seja o espaço de ressignificação e recriação da cultura herdada (salvaguardando temas oriundos sobre sexualidade natural, constituição de família, ideologia de gênero e correlatos. Afinal, a premissa dos mesmos é do pátrio poder), privilegiando trocas, acolhimento e senso de pertencimento, para assegurar o bem-estar das crianças e adolescentes, a plena consciência da presença divina na criação do homem e da mulher.

Ataques frontais e absolutamente violentos contra orientações sexuais e identidades de gênero fora da heteronormatividade, terminando com a completa negação da laicidade do Estado. Na verdade, o deputado tenta implantar o criacionismo na educação baiana já há algum tempo. Em dezembro de 2014 ele chegou a apresentar à Assembleia Legislativa da Bahia um projeto de lei que tratava “sobre a inserção na grade curricular das Redes Pública e Privada de Ensino do Estado da Bahia os conteúdos sobre Criacionismo.”

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Arisson Marinho/CORREIO

Do outro lado, a mobilização em favor da inclusão dos termos gênero e sexualidade envolveu o apoio de vários movimentos sociais, coletivos, professores, grupos de pesquisa e até representantes da Defensoria Pública da União e da Defensoria Pública do Estado da Bahia – estes últimos apoiaram a causa com uma nota técnica cuja leitura é muito recomendada. Coletivos LGBTT e movimentos negro e feminista também marcaram presença, mostrando que tais intervenções num projeto de educação democrática e inclusiva trazem consequências ainda mais perversas.

Segundo Leandro Colling, professor da Universidade Federal da Bahia, “Esses termos [gênero e sexualidade] marcavam as questões que precisavam ser discutidas e foram substituídos pelo termo “guarda-chuva” do respeito à diversidade, que é amplo e não delimita as questões como deveria. O movimento negro, por exemplo, também sai perdendo, porque marcadores envolvendo essa temática também foram substituídos”.

“Escola livre” é aprovado em Alagoas

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A despeito da mobilização de professores do ensino básico e do ensino superior de Alagoas, o veto do governador Renan Filho foi derrubado e assim o projeto 69/2015, de “autoria” do deputado Ricardo Nezinho (PMDB), foi aprovado. A Secretaria de Educação do estado e o Sinteal já afirmaram que irão recorrer da decisão. Leia aqui o texto final aprovado, e releia este nosso post para mais informações sobre o projeto. Nós fizemos uma carta aberta pedindo primeiramente ao governador para que vetasse; após esta pequena vitória, redirecionamos a carta aos deputados e deputadas alagoanas defendendo a manutenção do veto.

 A sessão onde se discutiu o veto foi desesperadora. Ela me fez pensar no ensaio de George Orwell chamado A política e a língua inglesa (1). Neste texto Orwell narra como que a decadência da língua inglesa que ele entendia estar em curso era um reflexo de um crescimento da ignorância política dos ingleses. Para quem já leu 1984, ou que mesmo sem ter lido conhece a ideia da novilíngua, já deve ter pego a ideia. Explico: para Orwell, a decadência da língua inglesa era evidente em textos cujos autores tentavam ser cultos demais e por causa disso davam voltas repetitivas, sem nunca deixar claro a ideia das suas frases; e/ou usavam de expressões clichês para completar suas ideias. E o que acontece, segundo Orwell, quando uma língua se acostuma a funcionar através de clichês? Acontece que as pessoas param de pensar. Por isto o “emburrecimento político” (expressão minha, não do autor) inglês: as pessoas estavam se acostumando a se expressar por meio de frases feitas, expressões feitas, clichês, e assim elas não estavam realmente pensando sobre o que estavam escrevendo e falando. Elas só estavam repetindo.

Foi isto que pareceu a sessão. A linguagem não estabeleceu uma comunicação real entre os deputados. O principal defensor do projeto, Bruno Toledo (PROS), defendeu como democrático e interessante um projeto de lei que despudoradamente limita a liberdade de expressão sem aparentemente detectar nenhuma contradição. Ele louvava a neutralidade e falava do perigo da “doutrinação” sem explicar nada disto devidamente, mas também não foi questionado como deveria. Infelizmente, até mesmo um deputado que era contra o projeto usou o termo “ideologia de gênero”. Os outros deputados e deputadas que votaram contra o projeto fizeram boas colocações quanto à sua inconstitucionalidade, mas não chegaram à essência da questão: desconstruir os termos slogans que se espalham atualmente.  Ao fim e ao cabo, o escola sem partido conseguiu estabelecer a linguagem pela qual o projeto foi discutido. Uma linguagem de frases feitas e expressões vazias de sentido, mas que têm sido repetidas incessantemente por muitos que têm-se recusado a pensar.

“Escola sem partido” é proposto em Belo Horizonte

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No dia 20 deste mês mais um município passou a contar em sua Câmara Municipal com uma versão do Escola Sem Partido: Belo Horizonte.

O projeto de número 1911/2016 é de “autoria” do vereador Sergio Fernando Pinho Tavares (PV). Ele é absolutamente igual ao anteprojeto municipal disponível no site do Escola Sem Partido.

Vale lembrar que na quarta-feira desta semana, dia 27 de abril, o prefeito de Campo Grande (MS) vetou completamente o Escola Sem Partido que foi aprovado pelos vereadores daquele município, alegando inconstitucionalidade e vários outros vícios do projeto (a justificativa do veto do prefeito começa no fim da primeira página do Diário Oficial).

No momento o projeto encontra-se em apreciação pela Comissão de Legislação e Justiça, responsável por avaliar aspectos formais do texto. O relator designado é o vereador Joel Moreira Filho (PMDB).

Para verificar a situação do projeto, clique aqui, selecione “projeto de lei” e busque pelo número “1911”; o “escola sem partido” deve ser o primeiro resultado.

A ideologia do Escola Sem Partido

Texto de Renata Aquino

Parte I – Falácias

A pretexto de transmitir aos alunos uma “visão crítica” da realidade, um exército organizado de militantes travestidos de professores prevalece-se da liberdade de cátedra e da cortina de segredo das salas de aula para impingir-lhes a sua própria visão de mundo. (“Quem somos”, escolasempartido.org)

O Escola Sem Partido baseia seu discurso na afirmação de que ele é um movimento de nada mais do que pais e mães preocupados com a educação que suas filhas e filhos recebem, porque supostamente um número assustador de professores estaria utilizando sua liberdade de cátedra para doutrinar e manipular crianças e jovens, forçando-os a entrarem nas fileiras de partidos esquerdistas.

Na parte do site que abre este texto, diz-se que há também estudantes e outros membros da comunidade escolar preocupados com a “doutrinação ideológica” sistemática em curso. No entanto, em suas postagens na página oficial no facebook; no perfil de seu coordenador, o advogado e procurador do estado de São Paulo, Miguel Nagib; e em páginas correlatas (núcleos de outros estados e páginas focadas no combate à “ideologia de gênero” [sic]), os eixos que guiam o discurso do movimento são:

  • I – somente os pais têm o direito de educar seus filhos, ou seja, entende-se que é possível um ensino neutro, onde o conhecimento científico do mundo está separado de quaisquer valores presentes na sociedade, exemplificado no livro cuja leitura é recomendada no canto esquerdo inferior do site: “Professor não é educador”, de Armindo Moreira; e que, assim sendo, qualquer transmissão de valores que ocorra em sala de aula é indevida e trata-se uma intromissão em um direito e um dever que é somente dos pais, os responsáveis por decidir o que seus filhos e filhas devem ou não ouvir falar.
  • II – o Escola Sem Partido não pode ser entendido como um movimento “político” e “ideológico” porque ele quer “somente” que a Constituição seja respeitada. Assim, cada vez mais o movimento produz material e ações onde busca trazer para o escopo de seu projeto dispositivos constitucionais que se tornam absurdos se aplicados ao âmbito educacional. Alguns dos exemplos mais absurdos são: a justificativa do projeto 867/2015, do deputado Izalci Lucas (PSDB-DF); a justificativa da representação contra a redação do ENEM que a Associação Escola Sem Partido entregou às várias unidades da Procuradoria da República; a justificativa do projeto 1859/2015, assinado por mais de uma dezena de deputados federais, e que também já demonstra apropriação dos argumentos do ESP para ir ainda mais além da crítica à suposta “doutrinação ideológica”. Vemos aqui, dentre vários outros, o uso do Estatuto da Criança e do Adolescente e do Pacto de San José da Costa Rica, dispositivos de garantia dos direitos civis de crianças e de povos inteiros, sendo utilizados para fundamentar um ataque à liberdade de expressão na educação “que nem a ditadura fez tão sistematicamente”.

Este texto visa mostrar a falácia que é este vácuo político e ideológico ao qual o Escola Sem Partido se diz pertencer. Apesar do absurdo que é afirmar que um movimento social não é ideológico, ou seja, negar que ele é baseado numa série de ideias, ele segue atraindo apoiadores e ganhando espaço em várias casas legislativas brasileiras. Quanto à sua negação do seu caráter político, isso está de acordo com uma falácia muito importante para manter a sua imagem de ingênuo, puro e simples defensor da aplicação das leis: a falácia de que ser político é necessariamente ser partidário.

 Assim, o que buscarei fazer adiante é dar concretude a algo que deveria ser auto-evidente – que todo movimento social é político e ideológico por definição – mas que no atual contexto político brasileiro se torna necessário explicar em mínimos detalhes. O Escola Sem Partido nega pertencer a qualquer corrente de pensamento porque isto faz parte de sua estratégia retórica que busca criar para si uma imagem de algo universalmente inquestionável. Logo, para desmontar seu discurso, mostraremos que ele faz parte de um conjunto de ideias específico, que por sua vez são profundamente contrárias a uma educação crítica, igualitária e libertadora, capaz de criar uma sociedade mais justa no futuro. (1)

Parte II – Diga-me com quem andas e te direi quem és

(…) decidimos criar o EscolasemPartido.org, uma associação informal, independente, sem fins lucrativos e sem qualquer espécie de vinculação política, ideológica ou partidária.

Miguel Nagib – coordenador (“Quem somos”, escolasempartido.org)

O Instituto Millenium foi o primeiro think-tank brasileiro, criado em 2005 (2). Ele se define como “uma entidade sem fins lucrativos e sem vinculação político-partidária com sede no Rio de Janeiro. Formado por intelectuais e empresários, o think tank promove valores e princípios que garantem uma sociedade livre, como liberdade individual, direito de propriedade, economia de mercado, democracia representativa, Estado de Direito e limites institucionais à ação do governo.”. Ele faz parte de um cenário de várias instituições do mesmo tipo que defendem e promovem os ideais liberais na sociedade, principalmente a diminuição do papel do Estado. Por exemplo, uma das instituições companheiras do Millenium, o Instituto Liberal, é presidido por Rodrigo Constantino, ex-colunista da Veja e popular divulgador de opiniões da direita brasileira.

Revistas como a Veja e a Época, por exemplo, são úteis para acompanhar e evidenciar como os ideais do Escola Sem Partido e os ideais destes think-tanks se encontram e caminham juntos. Luiz Felipe Pondé, colunista da Veja e também popular figura da direita, que também já participou de um  podcast do Instituto Mises Brasil onde falou sobre o ensino ser “o principal inimigo da liberdade no Brasil”, em artigo recente deixou claro que agora que a “batalha do impeachment” parece vencida, a educação deve ser o próximo alvo. Em fevereiro saiu no site da Época um texto chamado “É ético usar a sala de aula pra ‘fazer a cabeça’ dos nossos alunos?”, assinado por Fernando Schüler, que seguindo a linha de Pondé se foca em apontar “doutrinação” em livros didáticos escolares. Schuler, que também tem vários textos  no site do Millenium e de fato faz parte da equipe de  especialistas do instituto, é defensor de ideias caras ao neoliberalismo como o ”vale-educação”, rotulando os defensores da educação pública de “lobby da educação estatal” e apoiando a privatização do ensino.

Os exemplos acima são apenas alguns. No entanto, se ainda assim não se poderia afirmar que o Escola Sem Partido em si, seus organizadores e afins, têm vínculos ideológicos com este cenário liberal brasileiro que pintei brevemente, isto cai por terra quando lemos um texto escrito pelo próprio Miguel Nagib, criador e coordenador do movimento, cujo título é muito claro e óbvio: Por uma escola que promova os valores do Millenium.

prova do Nagib no millenium

O print acima foi retirado deste texto aqui de 24 de novembro de 2013, um post no blog Independente Fatec-SP, que segundo o seu “quem somos nós” é feito por um grupo de alunos daquela faculdade. O print prova que Miguel Nagib era parte do Millenium pelo menos até aquela data, através de seu perfil no site do instituto sob o título “mantenedores”, como se vê na imagem. O texto no blog fala sobre o caso de uma professora da Fatec-Barueri que estava sendo acusada de “doutrinadora” pelo Escola Sem Partido, através de textos de Nagib no site do movimento, e identifica o mesmo como articulista do Instituto, para argumentar que a perseguição tinha caráter político. Em 29 de novembro a Revista Fórum publicou matéria sobre o assunto onde veiculava uma nota do Instituto Millenium (trecho entre aspas):

Em nota, o Instituto Millenium (Imil) diz que Miguel Nagib “não faz parte do atual grupo de articulistas e que não mantém nenhum vínculo ou parceria com a iniciativa ‘Escola sem partido’”, ainda que seu nome constasse na página eletrônica da instituição até a realização dessa matéria.  “O Imil, que é formado por intelectuais e empresários, visa promover valores e princípios que garantem uma sociedade livre, como liberdade individual, direito de propriedade, economia de mercado, democracia representativa, Estado de Direito e limites institucionais à ação do governo”, diz a nota. “Os especialistas que participam do think tank  defendem ideias distintas, já que a pluralidade de pensamento é um valor importante para a instituição. São publicados no site do Imil e debatidos em eventos institucionais temas que tenham afinidade com os valores. O Instituto Millenium não responde, no entanto, por todas as ideias defendidas pelos especialistas.”

Hoje em dia, ao buscar “Miguel Nagib” no site do instituto, recebemos somente um resultado: uma notícia de sua participação em um evento organizado pelo instituto, o “Fashion Monday”, que aconteceu em março do ano passado. Ao buscar escola sem partido (sem aspas), recebemos 12 páginas de resultados, inclusive um texto na primeira página do já citado Fernando Schuler. E, mais importante, aparece como resultado o “Por uma escola que promova os valores do Millenium”, mas que agora, curiosamente, tem como autoria “Comunicação Millenium”, e não mais Miguel Nagib, como devia aparecer na época em que o print acima foi feito.

O outro texto de sua autoria que aparece na imagem, “Direito dos pais ou do Estado?”, também é encontrado no site quando busco por seu título diretamente, e também consta como de autoria da “Comunicação Millenium” – não obstante, esta situação aqui é ainda mais exótica porque este artigo não está transcrito no site, mas pode ser lido clicando numa imagem ampliada dele publicado na versão impressa do jornal Folha de São Paulo, e quando clicamos para ler, o artigo impresso tem como autores Luiz Carlos Faria e… Miguel Nagib.

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clique na imagem para ler o texto em outra aba

Nagib também aparece em documentos do Millenium. No “Relatório de atividades 2009/2010”, Nagib é citado entre os articulistas e especialistas do Instituto, na página 11 do arquivo em pdf linkado. No “Relatório de atividades de 2011”, por sua vez, ele aparece agora como doador (página 8).

Também encontram-se no próprio texto pistas de sua autoria, que indicam que no mínimo ele é de alguém que também faz parte do movimento Escola Sem Partido. Atenção ao trecho abaixo:

(…) Outra aberração: a cartilha socialista de Mário Schmidt (“Nova História Crítica”) para alunos do ensino fundamental. Em artigo publicado no Globo (18.09.2007), que reproduzimos no EscolasemPartido.org (clique aqui para ler), o jornalista Ali Kamel selecionou alguns trechos desse monumento de subliteratura didática: (…)

A conjugação do verbo em negrito deixa pouco espaço para dúvidas.

O erro dos educadores

Este texto é muito ilustrativo. Ele deixa claro, por a + b, a mentira do argumento recorrente de que o Escola Sem Partido se trata somente de defender crianças e jovens de “exploração”, “doutrinação” e afins. O problema com a educação atual é que ela “calunia o mundo real para vender a jovens imaturos, inexperientes e presunçosos a ideia de que “outro mundo é possível’.” (primeiro parágrafo após as frases que tratam dos princípios do Millenium). Ou seja, o erro que nós, educadores, cometemos, aparentemente, é criticarmos a realidade e ousarmos imaginar um mundo melhor e mais justo. Nosso erro, segundo o Escola Sem Partido, é ousar tentar desenvolver uma educação que empodere, transforme e liberte.

Por trás da alegação de que se busca um Estado democrático e liberdades individuais, esconde-se o conservadorismo mais ordinário que não aceita liberdade e democracia para todos: só é família de verdade, e por isto é a única que pode ser citada na escola, a família heterossexual e cristã; falar da questão das mulheres, usando o recorte de gênero nos temas da aula, é “ideologia de gênero” – ou seja, é inventar opressão; discutir religiões de matriz africana, e compreende-las enquanto manifestações culturais, principalmente se se diminui as menções à religião cristã, é absurdo.

Por uma educação crítica, igualitária e libertadora, que ensine a questionar a realidade sim, que crie muitas dúvidas e faça muitas provocações, para que as crianças e jovens de hoje revelem-se a mudança pra melhor que todas e todos precisamos, é que lutamos e lutaremos contra o Escola Sem Partido.

(1) Vale lembrar também que nem a negação do Escola Sem Partido quanto a vínculos partidários é totalmente verdade, como expomos neste vídeo. Enquanto movimento social que busca levar a cabo uma certa agenda, é normal que se busque este tipo de vínculos partidários; o problema essencial aqui é como estes vínculos são escondidos, objetivando manter a mentira de um grupo de pais preocupado com as crianças e com a aplicação das leis.

(2) O IMIL foi criado em 2005 e apresentado ao público em 2006, no evento “Fórum da Liberdade”, conforme o histórico disponível em seu site. Para saber mais sobre este evento, conhecer a rede de think-tanks brasileiros da direita, entre eles alguns financiados por capital internacional, recomenda-se a leitura da reportagem A nova roupa da direita.

Série “Conquistas em risco” da ANPEd entrevista prof. Fernando Penna

A Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd) começou recentemente a publicar uma série de entrevistas chamada “Conquistas em risco”. Buscando mapear as principais ameaças à educação brasileira, pesquisadores de diferentes temas discutem questões atuais que põem em perigo a educação crítica e democrática que nós, educadores, defendemos. Até agora foram entrevistados: o professor Luiz Antonio Cunha, falando sobre a ameaça constante à laicidade da educação pública; a professora Theresa Adrião, sobre as tentativas recentes de transmissão da educação pública para mãos privadas; o professor Celso Ferreti, sobre a disputa política em torno das formas que deve tomar o Ensino Médio.

O último pesquisador entrevistado foi Fernando Penna, professor da UFF e membro aqui do MLE, falando sobre a ameaça representada pelo movimento “Escola Sem Partido”. O professor falou sobre a história do movimento, seus desenvolvimentos mais recentes e como o combate à “ideologia de gênero” [sic] tem se tornado carro chefe desta campanha de ódio aos professores. Reproduzimos a entrevista abaixo. Clique aqui para ter acesso à ela no site da ANPEd. A entrevista foi feita por João Marcos Veiga.


Confira a entrevista com professor Fernando de Araújo Penna sobre o tema “escola sem partido“. O professor da UFF aborda o panorama de informações falsas, distorções e arbitrariedades em tramitações de projetos que cercam o tema. O depoimento integra a série “Conquistas em Risco” realizada pelo Portal da ANPEd.

Num contexto de conquistas em risco (seja por cortes em investimentos e programas, seja por ofensivas conservadoras no congresso e sociedade, investidas de empresários e fundações), como analisar a proposição de uma “Escola sem Partido”? De onde surge isso e qual seu impacto nas discussões sobre a escola pública? Continuar lendo

Diário das Ocupações no Rio de Janeiro: IEPIC

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Texto de Fabiany Melo e Diogo Salles

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O IEPIC (Instituto Educacional Professor Ismael Coutinho) é a primeira escola de formação de professores da América Latina. Inaugurado em 1835 a partir do modelo de Escola Normal que estava começando a se estabelecer, o IEPIC estava na vanguarda de um projeto político de construção  do sistema de ensino brasileiro a partir da padronização da formação profissional docente. Mas, ao contrário do que pode parecer, a importância histórica do colégio não é uma questão para a ocupação. Na verdade, a tradição de mais de um século de existência não parece pesar nas costas de estudantes que sentem que suas pautas já deixaram o Período Regencial para trás há muito tempo.

Se no século XIX a criação de escolas como o IEPIC tinha a ver com a consolidação de um modelo de governo e de um projeto de nação para aquela época, agora, o que está em jogo é o rompimento com as várias políticas governamentais que não representam mais os interesses de uma comunidade escolar cada vez mais carente, junto com a criação de novos jeitos de se pensar em como se faz educação.

O IEPIC é um caso bem singular em comparação com a dos demais colégios ocupados no ocupaIEPIC_2Rio. O movimento de tomada da escola partiu dos secundaristas, todos eles em formação para se tornarem professores da educação infantil e dos primeiros ciclos do ensino fundamental. Para eles, o “total apoio à luta dos professores” – primeiro ponto de sua pauta – também significa encorajar uma briga por direitos que, mais cedo ou mais tarde, também serão disputados por eles. Num momento em que o desinvestimento no educação e as imposições burocráticas do governo precarizam cada vez mais a relação entre estudantes e escola, os alunos do IEPIC trazem uma outra questão à tona: o que significa se formar enquanto professor em condições como essas e, invariavelmente, o que significa ser um professor quando os obstáculos parecem tão intransponíveis?

Apesar da tradição e longevidade do IEPIC, os estudantes não se reconhecem bem representados dentro dessa longa trajetória.

Durante a visita feita à escola, os relatos mais comuns diziam respeito às dificuldades de negociação com os representantes da escola, o estado precário em que ela se encontra, onde faltam desde serviços básicos (alimentação, limpeza, segurança), até uma adequada gestão educacional.

ocupaIEPIC_3A situação com a direção do colégio é particularmente tensa. Em vídeos produzidos pelos próprios alunos, pode-se ver que os momentos iniciais da ocupação foram marcados por muitas discussões com membros da direção. Aqui se repete um problema que parece ser a regra para a realidade das escolas da rede estadual. Diretores não são eleitos pela comunidade escolar, mas indicados pela Secretaria de Educação. Os estudantes não recebem explicações a respeito dos direitos que eles possuem para se mobilizar através de grêmios. Disciplinas têm horários reduzidos, prejudicando alunos que dependem de várias dessas matérias para sua formação profissional. Com esse vazio de legitimidade que a administração do colégio sofre, ocupar vira a principal maneira de ter suas demandas ouvidas.

Muitas dessas pautas podem parecer vagas, mas têm um caráter bem pragmático dentro do dia a dia do colégio. Por exemplo, o “fim da obrigatoriedade do uniforme” pode ser entendido como uma demanda desnecessária, mas é algo significativo para alunas que devem estudar de saia, mas não podem usar esse tipo de roupa em seus próprios estágios de iniciação à docência; pedir pelo “fim da opressão e do preconceito” talvez seja visto como algo ingênuo, mas dentro de uma realidade de um corpo discente com parcelas significativas de estudantes LGBTs, essa exigência parece dizer respeito a aspectos muito feios, porém não menos verdadeiros, de uma realidade escolar que precisa ser contestada.

Reconhecendo-se como um movimento apartidário, a ocupação conta com a adesão de alunos do ensino fundamental e médio, além do apoio de professores, pais, advogados e mídia independente, que vêm acompanhando os esforços dos alunos com a autorização da ocupação.

Os alunos utilizam o ginásio do colégio como dormitório e recebem o apoio de outros estudantes e familiares para maior segurança. Contam com a iniciativa de diversos grupos que promovem eventos como oficinas e “aulões” para esclarecimento de temas e integração do corpo discente. Também recuperaram a rádio da escola para melhorar o contato e divulgação entre alunos e relataram o princípio de formação de um grêmio estudantil durante a ocupação.

A reivindicação dos estudantes de uma “gestão autônoma das escolas” parece ser a chave para as várias questões levantadas pela ocupação. Com ela, os alunos estão redefinindo o seu lugar dentro da escola. Enquanto estudantes, eles querem ter condições de dizer algo sobre o que precisa mudar e o que precisa melhorar dentro da escola para terem suas necessidades atendidas. Enquanto professores em formação, eles esperam que o novo tipo de escola que eles estão ajudando a construir seja uma escola da qual eles gostariam de fazer parte num futuro próximo.